A União das Cooperativas de Goiás (UCEG), entidade que deu origem ao Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB/GO), chegou a 1959 com uma certeza e muitas pendências. A certeza: o cooperativismo goiano tinha representação. As pendências: filiação irregular, caixa dependente de apoio do setor público e um Estado que crescia mais rapidamente do que sua capacidade de organizar a produção.

O contexto nacional não dava folga, tendo uma expansão no quintal de Goiás – a criação de um novo Distrito Federal, com as obras a todo vapor em Brasília. Juscelino Kubitschek avançava no cronograma da nova capital – a inauguração estava marcada para abril do ano seguinte. O Centro-Oeste era obra. E Goiás, que abastecia as frentes de trabalho com arroz, feijão e carne, sentia, na prática, o que significava produzir sem escala e sem crédito, mas afetado por um aquecimento de negócios inédito até então.

Foi nesse cenário que a UCEG passou a pressionar com mais consistência pela instalação de uma agência do Banco Nacional de Crédito Cooperativo (BNCC) em Goiás. A reivindicação já havia sido levada ao governador José Ludovico de Almeida – como vimos no capítulo anterior. Em 1959, a demanda ganhou mais urgência: sem acesso ao crédito cooperativo federalizado, as cooperativas rurais do Estado seguiam reféns dos juros do mercado privado ou da lentidão dos repasses estaduais.

O governador Ludovico terminaria seu mandato em 1961. Seu sucessor, Mauro Borges Teixeira, eleito em 1960, já sinalizava uma agenda de modernização que incluía o campo. A UCEG precisava estar posicionada para esse momento – e 1959 foi, em grande medida, o ano em que a entidade trabalhou para isso: ampliar filiações, organizar assembleias, tornar-se um interlocutor ativo que, seja qual fosse o governante, não pudesse ser ignorado.

No interior, a maioria das cooperativas rurais – de arroz, feijão e pecuária – operava com poucos cooperados e estrutura ainda precária. Mas operava. E cada uma delas era um ponto de apoio para o movimento que a UCEG articulava gradativamente em escala estadual. O trabalho era silencioso, sem manchetes. Era o trabalho de quem planta antes de colher. 

O ano de 1959 terminou sem marcos dramáticos. Mas foi o ano em que a UCEG aprendeu que estrutura não se improvisa – constrói-se, reunião a reunião, cooperativa a cooperativa. O futuro estava sendo escrito.

Presidente Juscelino Kubitschek discursando durante inauguração da ponte João Alberto, que liga as cidades de Aragarças, em Goiás, e Barra do Garças, em Mato Grosso

O ano da virada

Ano 1960

Em 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada. Para o Brasil, era o símbolo de uma era. Para Goiás, a transformação se mostrava mais concreta: o fim de um ciclo de obras e o início de outro, de convivência com uma capital federal que agora era vizinha. Encerrava-se de vez o isolamento. A mudança do eixo político do País trouxe consequências diretas para o Estado. Com Brasília no mapa, Goiás deixou de ser passagem e passou a ser destino. A infraestrutura que servia à construção – estradas, abastecimento, logística – precisava agora servir ao desenvolvimento permanente. O campo goiano, que havia alimentado o canteiro de obras por quatro anos, cobrava a sua vez.

Para a União das Cooperativas de Goiás (UCEG), 1960 foi o ano em que o ambiente político começou a mudar ao seu favor. Mauro Borges Teixeira foi eleito governador com uma agenda clara de modernização da economia goiana. 

No plano municipal, o então prefeito de Goiânia, Jaime Câmara, era um dos fundadores da UCEG. No Estadual, Mauro Borges, e, no federal, Juscelino Kubitschek – dois entusiastas e apoiadores do setor. O presidente, aliás, muito ligado a Goiás, por onde depois seria eleito senador (1961), realizava dezenas de obras estruturais e reuniões no Estado. 

O cooperativismo estava na pauta política e aparecia, em todos os discursos, como instrumento de organização setorial e, principalmente, rural. Era o reconhecimento que a entidade vinha buscando desde 1956. 

No plano nacional, o cooperativismo também se reorganizava, por meio da União Nacional das Associações Cooperativas (Unasco), da qual goianos participaram ativamente desde a fundação, buscando ampliar conhecimento e alcance. 

Geraldo dos Santos e o deputado federal cônego José Trindade da Fonseca e Filho, goianos, integravam o conselho consultivo da nova entidade. A Aliança Brasileira de Cooperativas (Abcoop), fundada em 1956, em São Paulo, ainda operava com pouca influência sobre o Centro-Oeste. O debate sobre uma representação nacional mais efetiva do cooperativismo estava aberto – e Goiás começava a ter voz nessa conversa. O goiano Clóvis Fleury, membro da Caixa de Crédito Cooperativo do Estado, também participou, no Rio de Janeiro, da fundação da Unasco. Aliás, a fundação da entidade foi pauta da reunião de diretoria da UCEG. 

Internamente, a UCEG seguia com sua estrutura enxuta, mas com um capital que não aparece nos balanços: a confiança das cooperativas que permaneceram filiadas apesar das dificuldades. 

O Brasil entrava nos anos 1960 num clima de euforia que logo se mostraria frágil. Para o cooperativismo goiano, no entanto, a virada da década trazia uma promessa concreta: um governador favorável, uma capital vizinha e um Estado que finalmente parava para pensar no que vinha depois da obra.

Fonte: Leitura Estratégica