1987: O mundo olha para Goiânia e o cooperativismo muda de comando

O ano de 1987 começa vacilante, continuando uma era de aperto. O Plano Cruzado, que embalara 1986 com preços congelados e consumo em alta, ruía sob inflação de volta e um novo pacote heterodoxo do governo Sarney. Em Goiás, Henrique Santillo assumia o comando do Estado num cenário de contas apertadas e cobrança crescente por resultado, pano de fundo que cobrava do cooperativismo, mais uma vez, a função de sustentar o crédito rural e a renda do produtor quando o Estado vacilava.

O ano de 1987 marca a história de Goiânia e do Estado de Goiás. Se de um lado, a euforia de um evento internacional colocava a capital do Estado no centro do noticiário internacional, com Wayne Gardner cruzando a linha de chegada na frente de Eddie Lawson e Randy Mamola, levando o título na etapa decisiva do Campeonato Mundial de Motovelocidade – diante de trinta mil pessoas.

Pela primeira vez, uma capital brasileira aparecia no calendário oficial de um mundial da categoria – e era a capital goiana. Por outro lado, Goiânia seria notícia internacional na sequência da prova, que foi em 27 de setembro de 1987 – com o episódio radioativo do Césio 137.

Foi nesse tabuleiro de crise econômica e exposição internacional que a Organização das Cooperativas de Goiás (OCG), sucessora da OCB/GO, trocou de comando. Paulo Roberto Cunha, que fechara o ciclo iniciado em 1984, deu lugar a Eduardo Pereira de Andrade, nome que passava a assinar, a partir de 1987, a representação institucional do cooperativismo goiano diante do Estado e da própria OCB nacional.

Eduardo Pereira de Andrade

A transição chegava num momento simbólico: a entidade nacional discutia, na 16ª Assembleia Geral Ordinária da OCB, as bases da futura Frente Parlamentar do Cooperativismo, sinal de que o movimento buscava peso próprio no jogo político, e não apenas voz emprestada.

Para as cooperativas de Goiás, a herança que Andrade recebia não era pequena: um sistema que atravessara a recessão do início da década, a reindustrialização puxada pelo Fomentar e uma base de cooperativas agrícolas, de crédito e de consumo cada vez mais numerosa.

O desafio era manter esse crescimento em pé justamente quando a inflação corroía contratos e o crédito subsidiado, motor histórico do cooperativismo rural goiano, voltava a ficar escasso.

1988: A Constituição Federal fortalece o cooperativismo no Brasil

Em 5 de outubro de 1988, Ulysses Guimarães ergueu o texto da nova Constituição e chamou-a de Constituição Cidadã. Para o cooperativismo brasileiro, entre artigos sobre direitos e garantias, havia uma frase que valia décadas de luta: a criação de cooperativas deixava de depender de autorização do Estado, e ficava vedada qualquer interferência estatal em seu funcionamento.

Depois de 1971, quando a Lei 5.764 organizara o setor mas manteve a tutela do Ministério da Agricultura sobre a vida das cooperativas, o texto de 1988 cortava, de uma vez, o cordão umbilical que amarrava o movimento à vontade do governo de plantão. Era uma revolução.

O País vivia uma grande transição política, ao mesmo tempo, com uma economia cambaleante: o Cruzado já era lembrança distante, a inflação voltava a rondar patamares perigosos, e o governo Sarney fechava o mandato sob pressão.

Em Goiás, Henrique Santillo seguia à frente do Estado, equilibrando as contas públicas num momento em que o crédito rural – sustentáculo histórico do cooperativismo goiano – se tornava cada vez mais raro e caro.

Foi sob esse teto novo, o da autogestão cooperativa, que a Organização das Cooperativas de Goiás (OCG), presidida por Eduardo Pereira de Andrade, seguiu ampliando sua base. Sem depender mais de aval federal para registrar uma cooperativa, o setor em Goiás ganhava caminho livre para crescer nas frentes que já vinham se consolidando desde a década anterior: crédito rural, consumo urbano e a agroindústria que despontava com força no Cerrado.

No plano nacional, a mesma safra de conquistas trazia a filiação da OCB à Aliança Cooperativa Internacional (ACI), abrindo pela primeira vez uma porta goiana para o debate cooperativista mundial, ainda tímida, mas real.

A Constituição de 1988 não resolvia os problemas de crédito e juro que apertavam o produtor goiano, mas mudava a régua: de agora em diante, cooperativa seria projeto de quem cooperava, não concessão de quem governava.

Fonte: Revista Leitura Estratégica