A perda da essência cooperativista é o principal risco ao futuro do cooperativismo de crédito no Brasil. O alerta foi dado por três presidentes de centrais durante painel no 16º Concred, em Goiânia. Para as lideranças, investir em governança e educação cooperativista é o que separa as cooperativas das instituições financeiras tradicionais e é também o que garantirá o crescimento sustentável do setor. O painel “Estratégia de negócios e educação cooperativista”, mediado pelo presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, reuniu Celso Ronaldo Raguzzoni Figueira, presidente da Central Sicredi Brasil Central; Marcelo Baiocchi Carneiro, presidente do Sicoob Nova Central; e Raimundo Nonato Leite Pinto, presidente da Central Sicoob Uni.

O encontro abordou três temas centrais para o presente e o futuro do cooperativismo de crédito no Brasil: o comportamento das centrais diante da recuperação judicial e da inadimplência no agronegócio, a necessidade de diversificação para ampliar o market share e as ações internas para fortalecer a cultura cooperativista.
Ao abrir o debate sobre recuperação judicial e inadimplência no agro, Celso Figueira disse que a recuperação judicial é um instrumento jurídico legítimo, mas que exige das cooperativas uma postura diferente da adotada pelo mercado tradicional. “Precisamos nos adaptar a essas dificuldades. É preciso governança e adaptação às novas formas de negociação”, afirmou, destacando a atuação constante no campo jurídico do Sistema OCB para que o ato cooperativo seja reconhecido.

Marcelo Baiocchi reconheceu a legitimidade do instrumento, mas alertou para um uso acima do aceitável. “É um instrumento legal, mas no rural está extrapolando um pouco. Para as cooperativas de crédito há necessidade de governança e de uma área de risco muito competente”, disse. Ele citou o trabalho realizado pela Sicoob Nova Central junto ao Tribunal de Justiça para reverter decisões que possam prejudicar as cooperativas.
Raimundo Nonato trouxe a perspectiva da qualificação da relação com os produtores rurais cooparados. Segundo ele, a Central Sicoob Uni aposta em conhecer profundamente o produtor e seu comportamento financeiro. “Nossa estratégia é qualificar a decisão. É unir o conhecimento técnico no campo com a expertise da cooperativa de crédito”, explicou.
Market share
No segundo bloco, Luís Alberto Pereira questionou se há necessidade de as cooperativas diversificarem seus negócios e como fazer isso sem perder a identidade. Raimundo Nonato defendeu que o desafio é aumentar a relevância das cooperativas na vida das pessoas e empresas. Além disso, é oferecer uma jornada digital simples e completa, mantendo ao mesmo tempo a presença física das unidades de atendimento. “Uma experiência integrada entre físico e digital”, resumiu.
Celso Figueira reforçou que estar preparado para diversificar o mercado vai além da concessão de crédito. “Precisamos ser consultores dos nossos cooperados, discutir retorno financeiro e formas de pagamento”, disse, ressaltando o papel orientador que diferencia as cooperativas dos bancos.
Cultura cooperativista
No encerramento, Luís Alberto Pereira celebrou o legado do 16º Concred, citando a união das centrais e singulares e o programa Integração Juventude, que reuniu 3 mil estudantes das redes pública e privada. “É de arrepiar ver jovens aprendendo o que é o cooperativismo. Isso tem que ser programa permanente”, declarou.
Para Marcelo Baiocchi, é exatamente aí que mora o futuro do setor. “Sem educação cooperativista não haverá mudanças. Cultura tem que ser estimulada aos poucos. Não podemos perder nossa essência de cooperativa, porque vamos ficar parecidos com os bancos. Só a cultura cooperativista vai gerar pertencimento e evitar isso”, afirmou.
Raimundo Nonato defendeu que a cultura não pode se restringir a eventos e assembleias. “Acontece no cotidiano. No Sicoob Uni temos 2,3 mil profissionais em contato diário com cooperados, que são agentes da cultura. É nesse relacionamento que o cooperado precisa entender que não está diante de uma instituição financeira tradicional”, disse.


Celso Figueira diferenciou a cultura cooperativista da educação financeira, dois temas que, segundo ele, podem caminhar juntos. “A cultura é um modelo de vida. Não pode ser coisa isolada. Tem que estar no planejamento das nossas cooperativas todos os dias”, afirmou. Ele citou os programas do Sicredi, Crescer, que treina milhares de pessoas nos princípios e valores do cooperativismo, e Pertencer, que prepara cooperados para futuras posições de liderança. Na educação financeira, destacou o programa Cooperação na Ponta do Lápis, que treina professores para levar o tema às escolas. “Tem dado resultados fantásticos”, comentou.
Ao final, as lideranças convergiram para um mesmo ponto: o cooperativismo de crédito tem potencial enorme de crescimento, desde que invista em governança, educação e pertencimento. “Trouxemos o 16º Concred para Goiás justamente para aprofundar esses debates de forma permanente”, finalizou Marcelo Baiocchi. “O cooperativismo de crédito permanecerá se investirmos em cultura. É isso que vai nos manter diferentes dos bancos e relevantes para as próximas gerações”, completou.
A preocupação manifestada pelos presidentes encontra respaldo na agenda do Sistema OCB, que promove em 2026 o Ano da Cultura Cooperativista. A iniciativa busca justamente oferecer às cooperativas soluções voltadas à formação de educadores cooperativistas e ao fortalecimento da cultura como prática cotidiana, exatamente o caminho apontado pelas lideranças presentes no painel.
