Goiânia, 1957. A tinta da ata de fundação da União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG) mal havia secado quando o movimento cooperativista goiano já enfrentava sua primeira prova real. Planejar, estruturar, fundar uma entidade é uma coisa; executar o planejado é o desafio.

O ano de 1956 havia sido determinante. Em outubro, num espaço de 12 metros quadrados no Edifício Rita de Albuquerque, na Rua 8, catorze pioneiros assinaram as bases da representação cooperativista em Goiás. Mas outubro já era reta final de ano, o tempo para agir havia sido curto. Seria 1957, portanto, o verdadeiro ano zero da execução – e ele chegou carregado de planos.

Assim como outubro passado, a estrutura da UCEG seguia mínima. A única funcionária era a secretária cedida pelo Incra. O caixa era dependente de verbas públicas, porque as cooperativas filiadas raramente contribuíam com regularidade. Muitas delas ainda lutavam para equilibrar suas próprias finanças.

Havia uma razão histórica para essa fragilidade. As primeiras cooperativas de Goiás haviam surgido entre as décadas de 1930 e 1950, com forte ligação com os governos federal e estadual, voltadas principalmente para modificar as estruturas produtivas do Estado e abastecer as indústrias do Sul e do Sudeste. Esse apoio estatal para estruturação do setor foi a base de expansão do setor no País.

Há um século, o cooperativismo já era, para os governos, a melhor forma de transformar a realidade econômica de regiões que eram carentes de empresas ou produtores dispostos ou com capacidade para investir. Mas essa origem tutelada tinha um preço: a cultura da autonomia cooperativista ainda estava sendo construída.

Os estudos do economista e historiador Luís Estevam lançam luz sobre esse período. Segundo ele, as primeiras cooperativas goianas foram constituídas por imigrantes italianos e poloneses. Em Rio Verde, a Cooperativa Italiana de Técnicos Agricultores foi fundada em março de 1949 com o objetivo de assentar três mil famílias em 150 mil hectares – uma iniciativa que havia nascido na própria Itália e chegado ao Brasil com 400 agricultores. Dos que embarcaram, apenas 106 chegaram à região. E, diante das dificuldades encontradas, todos abandonaram o projeto um ano depois.

Em Itaberaí, no mesmo ano de 1949, a Cooperativa Agropecuária local havia assentado 51 famílias de deslocados de guerra de origem polonesa – mas também foi extinta, em outubro de 1957. A Cooperativa Rural de Córrego Rico, constituída na fazenda entre Inhumas e Itaberaí por outro grupo de imigrantes poloneses, teve o mesmo destino naquele ano.

Dois encerramentos no mesmo ano em que a UCEG tentava firmar seus primeiros passos. O recado era claro: sem organização, representação e crédito, cooperativas isoladas não sobreviviam.

Era exatamente esse o vazio que a UCEG se propunha a preencher. José de Assis Moraes, o primeiro presidente, entendia que representação sem presença era apenas retórica. E presença, naquele Goiás dos anos 50, significava percorrer estradas de terra, sentar-se à mesa com prefeitos e produtores e convencê-los – um a um – de que a cooperação era o único caminho viável para quem produzia sozinho num Estado de dimensões continentais.

A experiência política do presidente José de Assis Moraes, economista, ex-prefeito e ex-deputado, foi determinante nessa jornada de expansão da UCEG. O contexto nacional empurrava nessa direção. O governo de Juscelino Kubitschek acelerava a ocupação do Centro-Oeste, num processo que Goiás já vivia desde a criação de Goiânia nos anos 1930 e da interiorização do Mato Grosso Goiano nas décadas seguintes.

A chegada de imigrantes, principalmente da Europa, e de migrantes mineiros, paulistas e de vários Estados nordestinos aumentava a demanda por organização produtiva e por crédito. E o governo federal, que via no cooperativismo um instrumento de fixação do homem no campo, oferecia o respaldo institucional necessário.

Foi nesse cenário que a UCEG buscou cumprir sua função essencial neste primeiro ciclo. A reivindicação por uma agência do Banco Nacional de Crédito Cooperativo em Goiás foi levada pessoalmente ao governador José Ludovico de Almeida. Na pauta da entidade, a busca por financiamento da produção de arroz, feijão e batata por parte das cooperativas.

Ao final de 1957, a UCEG ainda não havia resolvido seus problemas financeiros. Mas havia feito algo bem mais difícil: mostrou relevância, conquistou apoio de vários agentes e dos cooperados, e havia permanecido de pé. Outro ponto: o encerramento das atividades de algumas cooperativas pioneiras dava o recado: unidade e representação eram condição de sobrevivência.

Fonte: Leitura Estratégica