Por Leandro Resende 

Pouco barulho e muito trabalho. A reorganização do sistema cooperativista na década de 60 exigia atenção, leitura do ambiente político e foco no cenário econômico. E assim foi feito em 1968. Com atuação discreta, mas planejada, foi mais um daqueles anos decisivos para o cooperativismo goiano. 

Enquanto o País caminhava para a publicação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), no fim do ano, em 13 de dezembro, frente a uma situação extremamente acirrada, a União das Cooperativas do Estado de Goiás (UCEG) vivia, em Goiânia, sem alardes, uma reorganização de nova expansão do seu projeto, seja qual fosse o regime. A UCEG foi a antecessora do Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB/GO).

Em 9 de novembro de 1968, pouco mais de um mês antes do AI-5, Garibaldino Felipe Machado foi eleito presidente da UCEG. A escolha não foi acompanhada de cerimônia, comunicado público ou demonstração de força. A posse foi discreta, com a presença de apenas seis dirigentes de cooperativas goianas. Era momento de discrição – e essa palavra, registrada no documento institucional sem rodeios, talvez seja a mais precisa para descrever o estado de espírito do cooperativismo organizado naquele instante.

Com endurecimento do regime, o Exército atua mais diretamente nas ruas. O ano de 1968 foi decisivo para recomposição do cooperativismo

A discrição não era sinônimo de timidez, mas método de ação. Naquela época, ninguém assumia o comando de uma entidade representativa sem a anuência dos militares. As chapas precisavam chegar à assembleia com os nomes já verificados pelo regime militar. A eleição de Garibaldino correu, portanto, dentro de um perímetro estreito, em que a margem para deliberação coletiva era pequena, mas em que a continuidade institucional do cooperativismo goiano dependia, justamente, da capacidade de operar dentro desse perímetro, sem desistir dele. A meta era voltar a crescer e se fortalecer.

O cenário político local tornava o gesto ainda mais delicado. O então governador, Otávio Lage de Siqueira, foi um dos raros governadores eleitos pelo voto popular naquele período, sendo considerado o último de Goiás eleito diretamente antes da vigência plena das eleições indiretas. Como não confrontava o regime militar, conseguiu conduzir a própria gestão – e, nas urnas, havia vencido Peixoto da Silveira, candidato de Pedro Ludovico.

Otávio Lage governava sob o momento de dupla transição: no âmbito local, era o fim da Era Ludovico e, no nacional, a plena ditadura militar. A UCEG precisava operar neste quadro novo, buscando o equilíbrio próprio das entidades que, então, focavam na sobrevivência institucional. Curiosamente, após deixar a vida política, décadas depois, Otávio Lage se tornaria um expoente industrial do Estado e, também, um dos grandes incentivadores do cooperativismo goiano na região de Goianésia.

Na parte econômica, neste novo ciclo dos anos 1960, trilhos das ferrovias arrefecem e abrem espaço para expansão das estradas e ruas, com a consolidação do transporte de cargas e o urbano, que revela forte expansão da capital com abertura de grandes vias. Acima, o início da Avenida Universitária

Garibaldino Felipe Machado assumiu a presidência da UCEG sabendo que governaria sob o AI-5, que ainda não havia sido publicado, mas cuja sombra já se projetava sobre as instituições representativas do País. Era um desafio, mas, naquele momento, pelas leis editadas e a narrativa do novo governo, o cooperativismo não estava fora do projeto de expansão econômica, estava apenas sendo redimensionado e colocado sob vigilância.

Quando, em 13 de dezembro, as duras regras do AI-5 foram publicadas, o cooperativismo goiano já estava acomodado em uma posição de baixa exposição que iria marcá-lo pelos anos seguintes. Foi um recuo tático, uma nova estratégia de expansão gradativa, focada na regionalização do crescimento e na valorização das conquistas do setor em Goiás. 

A linha do tempo institucional registra, nesse mesmo período, o movimento que culminaria na criação, em esfera nacional, da Organização das Cooperativas Brasileiras, a OCB, em 2 de dezembro de 1969, a partir da fusão entre a União Nacional de Cooperativas (Unasco) e a Associação Brasileira de Cooperativas a (ABCOOP). 

A OCB nacional foi formalmente registrada em cartório em 8 de junho de 1970, em Brasília. Mas esses próximos capítulos serão detalhados na próxima semana, em mais uma edição do caderno especial que comemora os 70 anos da OCB/GO.